Nas Ruas

Ter, 05/11/2019 | Atualizado em: 05/11/2019 às 04h05


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Costura Curso leva esperança a mulheres de Paripe

Euzeni Daltro
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Aprender um novo ofício é como receber um sopro de vida. Isso porque um novo ofício sempre vem acompanhado por um mundo de possibilidades, que nutre o corpo e a alma com doses curativas de esperança e entusiasmo. Aprender um novo ofício é como ser resgatado da morte diária provocada pelas rasteiras da própria vida. É dizer, mais uma vez, um sim à própria vida. É dizer, mais um vez, um sim para si mesmo. Sim que as 26 alunas do projeto Costurando o Amanhã deram para a vida e para elas mesmas, quando resolveram aprender um novo ofício. O de costureira.

"Esse curso está me ajudando tanto com o problema de depressão. Entrei em depressão primeiro pela morte de meu filho mais velho, há 11 anos. Não gosto nem de falar sobre isso. E depois pela morte de minha mãe, sete anos atrás", afirma Rosimaire Alves, 48, que já fez outros cursos no local. Segundo ela, o filho mais velho, Emerson, 18, foi assassinado durante um assalto. E a mãe, Gildete Alves, 81, morreu em decorrência de um AVC (Acidente Vascular Cerebral), após 20 anos sendo cuidada pela filha.

Rosimaire é cuidadora de idosos. Sem trabalho em sua área, ela passou a atuar de forma autônoma como vendedora de confecções. "Eu tinha curiosidade em aprender corte e costura. Gostava muito, mas não sabia nada. Eu vendo confecções e, a partir desse curso, posso confeccionar minhas próprias peças", afirmou ela, que pretende se especializar em moda praia. "Até consegui fazer um biquíni", comemorou.

Martinha Matos da Conceição, 59, também carrega a dor da perda de um filho. "Meu filho faleceu há 13 anos. Mataram por causa de mulher casada", contou, sem dar detalhes. "Esse curso é como se fosse uma terapia para a gente. A gente chega aqui com a mente preocupada e se distrai, esquece um pouco os problemas da vida", completou Martinha.

Costurando o Amanhã é uma iniciativa da Creche Escola Alto dos Pontes (creche comunitária na localidade Alto dos Pontes, em Paripe) em parceria com a Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza (Sempre). O intuito do projeto é qualificar essas mulheres para que possam ter condições de obter uma renda extra ou até mesmo retornar ao mercado de trabalho.

As aulas são realizadas sempre às terças-feiras e quintas-feiras, das 14h30 às 16h30, na sede do Restaurante Popular Cuidar, na Rua Santa Filomena, em São Tomé de Paripe. "Esse projeto surgiu no grupo de idosos da creche. Os idosos sempre reclamavam que lá não tinha muita atividade para eles e nós buscamos atender essa demanda. Aqui tem muitos idosos que perderam seus filhos para a violência", conta Licineia Morais, 55. Ela confirma a intenção de formar uma cooperativa com as alunas após a conclusão do curso.

Durante as aulas, as alunas aprendem a confeccionar roupas de um modo geral e moda praia. O clima é sempre animado, sobretudo quando concluem uma nova peça. As aulas são ministradas de forma voluntária pela costureira industrial Neide Almeida de Queiroz, 39. "Tenho alunas aqui que não sabiam nem pegar em uma tesoura e hoje estão costurando. Isso é muito gratificante", comemora a professora.

A secretária da Sempre, Ana Paula Matos, explica que, até o início de 2016, o Restaurante Popular era administrado por uma empresa privada. Segundo ela, em junho do mesmo ano, o restaurante foi reinaugurado pela prefeitura. "Deixou de ser apenas uma ação social de uma fábrica e passou a ser um espaço multifuncional para a população. A gente faz uma série de ações não só relacionadas à alimentação", afirmou a secretária, referindo-se aos serviços que são levados com frequência para o espaço, a exemplo do Serviço Municipal de Intermediação de Mão-de-obra (SIMM). "A nossa intenção não é promover assistencialismo. É promover autonomia", completou. A secretária adiantou que a prefeitura pretende implantar outro restaurante popular em Pau da Lima, em 2020.