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Seg, 16/03/2020 | Atualizado em: 16/03/2020 às 04h01


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Uma vida na capoeira

Euzeni Daltro
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O mestre de capoeira Cleber Peti, 50 anos, precisou fazer suas próprias escolhas desde muito cedo – fosse por sua vontade ou por imposição da vida. E em todas elas a capoeira estava presente. Aos 6 anos, ele decidiu treinar capoeira, apesar da proibição da mãe. E, para isso, saía de casa escondido para treinar com um tio. Aos 11 anos, a vida lhe impôs a responsabilidade de cuidar de si mesmo e dos cinco irmãos mais novos, uma vez que ele perdeu a mãe e o pai já enfrentava problemas com alcoolismo. Nessa época, o mestre já jogava capoeira na rua: no Mercado Modelo, Terreiro de Jesus, Campo Grande e Piedade, e passou a vender picolé para sustentar a si e aos seus.

"Eu tive tudo para dar errado e a capoeira me salvou. Graças à capoeira e também à minha personalidade forte, eu segui com o esporte. Eu falava para mim mesmo: 'Se eu for preso, quem vai me tirar?'. Meu pai bebia muito, minha mãe morreu, eu não tinha ninguém. Então eu fiz minhas próprias escolhas. Drogas? Não, não posso ir pras drogas. Se eu for para as drogas, eu vou sujar meu corpo. Eu me amo muito. Jamais. Então, eu fui escolhendo os melhores exemplos dentro da capoeira, como o mestre Alfredo Cominho, aqui de Cosme de Farias", lembra o mestre.

Ainda na infância, ele trabalhou vendendo pastel, sonho, cavaco e foi camelô. Dos 15 aos 18 anos, trabalhou como engraxate na Rodoviária de Salvador, depois como auxiliar de entrega da Coca-Cola. Diante de tantas dificuldades, o mestre fez uma promessa para si mesmo: "Eu prometi que, quando eu tivesse oportunidade, quando minha situação financeira melhorasse, eu iria fazer um trabalho social para integrar crianças e jovens à sociedade através da capoeira. E, graças a Deus, eu consegui", lembra ele, cujo nome completo é Cleber Sousa dos Santos.

A Escola Cultural Banto's Capoeira foi fundada por ele há quase 20 anos e oferece aulas gratuitas de capoeira às crianças e jovens, em Cosme de Farias. Aos longo desses anos, mais de 3 mil alunos passaram pela escola. Hoje, a Banto's Capoeira tem mais de 80 integrantes, entre alunos e professores, espalhados pelo Brasil e pelos Estados Unidos, Espanha, Áustria e França.

Há dois anos, mestre Cleber Peti mora na França, com a esposa, a enteada e a filha de dois meses. Mas ele sempre passa um período do ano no Brasil, para cuidar da escola. No restante do ano, a continuidade do trabalho é dada pelos alunos dele, os professores Bruxa e Vela.

Na cidade de La Roche, o mestre dá 12 aulas de capoeira por semana, cujos valores lhe permitiriam viver apenas da capoeira. No entanto, o tempo livre entre as aulas o possibilitou conciliar o trabalho com a capoeira com a função de supervisor de produção em uma fábrica de garrafas PET.

O mestre tinha o sonho de integrar a Companhia Oba Oba, do empresário Franco Fontana. A companhia era conhecida pelos shows de capoeira que realizava pelo mundo. Mas os caminhos nunca se cruzaram. Antes da França, mestre Peti morou no Canadá, na Espanha e nos Estados Unidos. Neste último, residiu por 16 anos e chegou a dar aulas de capoeira na Lynn University, em Boca Raton, na Flórida, e a participar de um musical da Broadway com Shakira em homenagem a Michael Jackson.